Candidato do PL tenta restringir a atuação de organizações estudantis que apoiam Lula no segundo turno. Entidades denunciam tentativa de perseguição política, enquanto universidades registram episódios de violência e ameaças contra estudantes.
Flávio Bolsonaro aciona TSE e é acusado de tentar perseguir o movimento estudantil
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) apresentou uma ação ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a cassação da chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Geraldo Alckmin (PSB), além de medidas para impedir o suposto uso irregular de recursos de organizações sociais e sindicais na campanha eleitoral. Entre as entidades citadas no documento estão a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União da Juventude Socialista (UJS), incluindo referências às suas dirigentes, Bianca Borges e Rafaela Elisiário. A campanha de Flávio acusa essas organizações de utilizar estruturas, canais de comunicação e mobilizações estudantis para favorecer a reeleição de Lula. As entidades não figuram formalmente como rés na ação, e as acusações ainda não foram comprovadas pela Justiça Eleitoral. A iniciativa acontece após estudantes realizarem manifestações em dezenas de universidades, defendendo a democracia, a educação pública e o fim da escala 6x1. Para o movimento estudantil, a ação representa uma tentativa de transformar sua participação política em motivo de punição judicial.
Em nota divulgada nesta quinta-feira (15), a UNE acusou Flávio Bolsonaro de tentar utilizar a Justiça Eleitoral para intimidar estudantes e restringir sua liberdade de manifestação. A organização afirmou que o apoio a Lula foi aprovado democraticamente por sua direção e que continuará promovendo atividades políticas. A UJS também participa das mobilizações nacionais pela reeleição do presidente. A disputa levanta uma questão importante sobre os limites da atuação das entidades durante as eleições: a legislação proíbe determinadas formas de financiamento irregular de campanhas, mas não impede que estudantes manifestem opiniões, organizem debates e defendam publicamente candidaturas. Para as organizações, o risco está em confundir a defesa legítima de posições políticas com práticas eleitorais proibidas. A UNE anunciou que pretende ampliar as mobilizações e realizar novos atos nos dias 18 e 24 de outubro, reforçando que a atuação estudantil não será interrompida pela iniciativa judicial.
Apoiadores de Bolsonaro protagonizam episódios de intimidação contra estudantes em diferentes estados
A ofensiva judicial ocorre em meio a uma sequência de ameaças e episódios de violência política contra estudantes que participam de manifestações favoráveis a Lula. Em Alagoas, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) denunciou a entrada de aproximadamente dez homens no campus de Arapiraca, em duas caminhonetes com imagens de Flávio Bolsonaro, para tentar retirar cartazes críticos ao candidato. Uma professora impediu a remoção, mas, segundo testemunhas, foi intimidada pelo grupo. A universidade solicitou investigação e reforço de segurança. Em Sergipe, um policial militar de folga sacou uma arma durante uma manifestação estudantil em frente à Universidade Federal de Sergipe (UFS), provocando correria e medo entre os participantes. Estudantes denunciaram disparos para o alto, ainda não confirmados pela perícia. A arma foi recolhida e o policial afastado das atividades de rua. Esses episódios mostram como o ambiente de disputa eleitoral tem ultrapassado o debate político e colocado em risco a segurança de estudantes e professores.
No Rio de Janeiro, a Universidade Federal Fluminense (UFF) encaminhou às autoridades denúncias de ameaças encontradas em um grupo de mensagens chamado "Juntos com Bolsonaro", incluindo referências à possibilidade de incendiar instalações da universidade e atacar estudantes com posições políticas diferentes. O grupo não possui vínculo oficial comprovado com a campanha de Flávio. Também foram registradas ameaças em instituições de Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Em São Paulo, uma manifestação de estudantes favoráveis a Flávio Bolsonaro, realizada em frente à Universidade Presbiteriana Mackenzie, teve referências elogiosas à ditadura militar e manifestações transfóbicas contra a deputada Erika Hilton (PSOL-SP). O ato contou com a presença de políticos ligados ao PL e ocorreu após estudantes de esquerda realizarem manifestações no mesmo local. Os episódios possuem circunstâncias diferentes e não há comprovação de que tenham sido coordenados pela campanha presidencial, mas revelam um ambiente de hostilidade contra a organização política estudantil que preocupa universidades, entidades e autoridades de segurança.
O confronto do bolsonarismo com o movimento estudantil vem de governos anteriores
O conflito entre a família Bolsonaro e organizações estudantis não começou nas eleições de 2026. Durante a campanha presidencial de 2018, a UNE denunciou ter sido alvo de uma ação judicial de Jair Bolsonaro após promover a campanha "Bolsonaro Não", aprovada por representantes de diretórios estudantis. Já em maio de 2019, durante os grandes protestos contra bloqueios de recursos para universidades federais, o então presidente Jair Bolsonaro chamou estudantes que participavam das manifestações de "idiotas úteis" e "imbecis", afirmando que eram manipulados politicamente. Posteriormente, reconheceu ter exagerado nas palavras. Durante seu governo, a educação superior enfrentou sucessivos bloqueios orçamentários, enquanto entidades estudantis criticaram intervenções na escolha de reitores e tentativas de enfraquecer sua participação nas decisões universitárias. Esses episódios envolveram diretamente Jair Bolsonaro, não Flávio, mas ajudam a explicar a relação de confronto construída entre o bolsonarismo e importantes organizações da juventude brasileira.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém propostas educacionais que provocam resistência entre estudantes e professores. Seu programa de governo defende a ampliação das escolas cívico-militares, critica o que chama de doutrinação política nas instituições de ensino e propõe transferir a gestão das universidades federais do Ministério da Educação para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações. Essa última medida é criticada por entidades acadêmicas, que alertam para riscos ao financiamento e à integração das políticas educacionais. Embora não seja possível afirmar que Flávio sempre tenha nutrido rejeição pessoal ao movimento estudantil, suas propostas e a atual ofensiva judicial demonstram um confronto político com organizações como a UNE e a UJS. Em um país onde estudantes tiveram papel importante na resistência à ditadura militar, na luta pela redemocratização e na defesa da educação pública, a possibilidade de restringir sua participação política exige atenção. A liberdade de organização, manifestação e debate é um direito democrático que deve ser garantido a estudantes de todas as posições políticas.
