Documentos mostram que o ex-presidente desautorizou a compra da CoronaVac e que o governo demorou a responder à Pfizer. Investigação parlamentar concluiu que os atrasos foram injustificáveis.
O governo de Jair Bolsonaro (PL) atrasou a aquisição de vacinas contra a Covid-19 mesmo depois de receber ofertas de fabricantes em 2020. Documentos analisados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia revelaram decisões políticas, negociações interrompidas e falta de prioridade na compra dos imunizantes.
A CPI concluiu que houve atrasos injustificáveis que prejudicaram a campanha nacional. O ex-presidente negou ter cometido irregularidades, mas declarações públicas e documentos oficiais mostram sua resistência à aquisição de determinadas vacinas.
Bolsonaro mandou cancelar compra de 46 milhões de doses
Em outubro de 2020, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, anunciou um acordo para adquirir 46 milhões de doses da CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantan.
No dia seguinte, Bolsonaro desautorizou publicamente o ministro e afirmou ter mandado cancelar a negociação. A decisão aconteceu durante uma disputa política com o então governador de São Paulo, João Doria (PSDB), responsável pela articulação com o Butantan.
À CPI, o diretor do instituto, Dimas Covas, declarou que a intervenção presidencial suspendeu as tratativas e atrasou a aquisição.
Pfizer ofereceu vacinas, mas governo demorou a responder
A farmacêutica Pfizer apresentou propostas ao Brasil a partir de agosto de 2020. Em setembro, enviou uma carta diretamente a Bolsonaro e outras autoridades oferecendo doses do imunizante.
O governo demorou aproximadamente dois meses para responder à correspondência. O primeiro contrato com a Pfizer foi assinado apenas em março de 2021, quando a vacinação já havia começado em vários países.
A CPI apontou que a demora nas negociações contribuiu para a falta de doses disponíveis nos primeiros meses da campanha brasileira.
Declarações contra imunizantes ampliaram resistência
Bolsonaro também questionou publicamente a segurança das vacinas e criticou a possibilidade de vacinação obrigatória. Em dezembro de 2020, ao comentar a Pfizer, chegou a mencionar a possibilidade de uma pessoa virar jacaré após receber o imunizante.
As declarações provocaram críticas de especialistas, que alertaram para os riscos de espalhar desconfiança sobre a vacinação durante uma emergência sanitária.
CPI apontou responsabilidade política pelos atrasos
Em outubro de 2021, a CPI aprovou um relatório que atribuiu responsabilidades ao governo federal pela condução da pandemia e recomendou o indiciamento de Bolsonaro por diferentes crimes.
A comissão considerou que a demora na aquisição das vacinas e a divulgação de informações sem respaldo científico comprometeram a resposta à doença. O Tribunal de Contas da União também identificou falhas no planejamento e na comunicação da campanha.
O Brasil ultrapassou 700 mil mortes por Covid-19 nos anos seguintes. Não é possível atribuir todas essas mortes aos atrasos, mas a antecipação da vacinação poderia ter reduzido vítimas, conforme avaliações de especialistas.
Os documentos comprovam decisões conscientes de adiar ou interromper negociações. A conclusão de que houve intenção de prejudicar a população, entretanto, exige uma avaliação diferente da comprovação dos atrasos administrativos.
